Sul 21 – Processo democrático no Egito pode beneficiar o Brasil

14 Fevereiro 2011

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 Fevereiro 14, 2011
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Category CEIRI na Mídia

Os reflexos da onda de mudança que varreu o Egito atingem não apenas o espectro geopolítico da região, mas abalam também as estruturas que sustentam a economia mundial. Não apenas por influenciar no Canal de Suez, uma das principais rotas de escoamento da produção de petróleo, mas também por modificar sensivelmente as relações comerciais do Egito com países ocidentais. Entre eles, o Brasil, que já mantém relações comerciais com vários países árabes. A consolidação da democracia no Egito pode representar parcerias comerciais aindamais vantajosas.

O diretor do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI), Marcelo Suano, acredita que o Brasil adotou uma postura “correta” na recente crise egípcia. O governo brasileiro teria optado pela neutralidade, reafirmando que não apoia ditaduras e reforçando valores democráticos sem interferir de forma mais profunda na questão. “Alguns podem ter reclamado que o Brasil ‘gritou pouco’, mas acho que o posicionamento do Brasil foi condizente com o que se espera de um grande país, que tem peso cada vez maior no cenário internacional”.

Marcelo Suano lembra que o Egito é um dos únicos países árabes a manter acordos comerciais com o Mercosul. Nesse sentido, é positiva a garantia egípcia de que todos os tratados internacionais firmados no regime de Hosni Mubarak serão mantidos. “Se houvesse a possibilidade de mudanças, isso poderia provocar desequilíbrio. O grande medo dos países ocidentais, nesse caso, é de que países como o Egito saiam de uma ditadura e entrem em outra, ainda pior”. (…)

Longo caminho para a democracia

Foram 18 dias de intensos protestos, que provocaram centenas de mortes e agitaram as ruas das principais cidades do Egito. O resultado: Hosni Mubarak, que equilibrava-se no governo egípcio há três décadas, foi derrubado, e um governo de transição, comandado pelos militares do país, conduzirá as reformas necessárias até a eleição de um presidente, em setembro. Com a dissolução do parlamento, toda a antiga base de sustentação de Mubarak encontra-se fora do poder. O trabalho pesado, porém, está só começando. A caminhada egípcia em direção à democracia é acompanhada de perto não só pelo mundo árabe, mas também pelas principais potências ocidentais, inclusive o Brasil, que não apenas temem eventuais recaídas autoritárias no país, como também se preocupam com os reflexos imprevisíveis da revolta egípcia no restante do mundo árabe. (…)

“Democracia, como a gente geralmente entende, acho muito difícil (a curto prazo)”, admite Marcelo Suano, do CEIRI. Segundo ele, uma democracia nos moldes ocidentais depende de um grande conjunto de instituições, que ainda não existem ou não estão consolidadas no Egito e nos países árabes em geral. A tarefa do governo de transição será criar, até as eleições de setembro, espaço para que ao menos algumas dessas instituições se desenvolvam. “A democracia ainda está dando os primeiros passos, e a eleição será importante para consolidar esse processo”, acrescenta. (…)

“Regime não tinha legitimidade”

Dissolver o parlamento, para Marcelo Suano, foi uma decisão até mesmo “óbvia”, dadas as circunstâncias. “Um governante como Mubarak, que enriquece mais de US$ 40 milhões em 30 anos… Desculpe, mas ninguém alcança isso sozinho. Não tem como isso acontecer sem que haja corrupção entre políticos, setores sociais e até mesmo esferas do poder militar”. Desta forma, a falta de confiabilidade de toda a estrutura política do país justificaria a dissolução do parlamento do Egito. “Dentro do contexto, não é uma atitude antidemocrática”, defende Suano. “Será antidemocrática se o parlamento não for reconstituído, se não for assegurada a continuidade desse processo rumo à democracia”. (…)

“A própria Irmandade Muçulmana é uma entidade fragmentada”, acrescenta Marcelo Suano, do CEIRI, citando a principal força de oposição política durante o governo de Mubarak no Egito. Ele explica que parte do grupo é mais radical, defendendo a aplicação de leis islâmicas, enquanto outros integrantes da Irmandade são mais moderados, favoráveis a contatos com o Ocidente e defendendo apenas reformas pontuais.

“Sair para a rua e protestar dá certo”

Se o Egito e a Tunísia sofreram mudanças de regime graças à mobilização popular, há sinais cada vez mais claros de que as revoltas no mundo árabe não devem ficar por aí. O Iêmen registra violentos confrontos entre manifestantes que pedem a queda de Ali Abdullah Saleh e apoiadores do regime, que já dura 32 anos. Na Jordânia, o rei Abdullah II dissolveu o governo e prometeu reformas políticas, em uma tentativa de acalmar a população. Na Argélia, país no qual as manifestações são proibidas, os protestos crescem em volume e dimensão, enquanto os protestos no Irã motivaram declarações da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que elogiou a coragem dos manifestantes iranianos e disse que é hora do país “seguir o exemplo do Egito” e rever seu sistema político.

Para Marcelo Suano, as revoltas populares no mundo árabe já estão se espalhando, mas devem gerar respostas diferenciadas em cada país. “Não dá para generalizar, cada país tem suas particularidades”, concorda Cláudia Musa Fay. Mas a historiadora defende que o sucesso das revoltas populares na Tunísia e no Egito consolidam uma ideia: sair para a rua e protestar dá certo. E os exemplos, segundo Musa Fay, não são apenas do mundo árabe. “Estamos tendo fortes manifestações contra Sílvio Berlusconi na Itália, tivemos protestos na França no ano passado. A repressão violenta às manifestações populares, de modo geral, não é mais viável como talvez tenha sido no passado. Essa ideia de que os protestos populares provocam mudanças está cada vez mais fortalecida”, garante. (…)

“A monarquia, em si, não é problema”, defende Marcelo Suano, lembrando que oito das 10 maiores democracias do mundo são baseadas em monarquias constitucionais. “A questão é que, na Arábia Saudita, a monarquia é absolutista. Trata-se do regime mais rígido do mundo árabe”. A insegurança dos EUA e de outras potências ocidentais, segundo Suano, estaria justamente na ausência de forças antagônicas no regime saudita. “A queda do rei traria um vácuo no poder, já que ninguém sabe que tipo de força política surgiria nesse caso. Esse é o grande temor”, diz o pesquisador.

Ver Reportagem Completa em: http://sul21.com.br/jornal/2011/02/processo-democratico-no-egito-pode-beneficiar-o-brasil/

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