Sul21 – Apesar de ter estilo diferente de Lula, Dilma não promoverá alterações bruscas no governo

29 dezembro 2010

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 dezembro 29, 2010
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Depois de oito anos no comando do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixa não apenas o cargo, mas o legado que construiu durante os dois mandatos, para sua sucessora, a também petista Dilma Rousseff. Se é certo que não haverá alterações bruscas entre os dois governos, uma vez que ambos pertencem ao mesmo partido e trabalharam em sintonia desde 2003, é certo também que possuem estilos distintos.

Enquanto Lula prima pela informalidade e não se priva de desfiar um vasto repertório de piadas em discursos e solenidades, Dilma adota um comportamento mais sério, imprimindo desde já a marca da discrição e do comedimento no centro do poder brasileiro. Pouco menos de dois meses após a consagração pelas urnas, a presidente eleita oscilava entre mudanças e permanências na formação do ministério. Apesar de alguns nomes novos, como o do petista José Eduardo Cardozo para a pasta da Justiça, e do diplomata Antonio Patriota para chefiar o Itamaraty, muitos dos atuais ministros permanecerão no governo, ocupando o mesmo cargo ou sendo remanejado para outro. (…)O diretor do Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (Ceiri), Marcelo Suano, endossa a tese de que o novo governo será pautado por alguns princípios inegociáveis no plano global. Na avaliação do especialista, o fato de Lula ter sido forjado no ambiente sindical – que impele à negociação constante – faz com que ele adote discursos adaptados à conveniência do momento. “Ele se adapta a todas as mesas internacionais. No entanto, não há uma linha muito clara sobre o que seriam direitos humanos e democracia. Há uma linha clara nas relações econômicas e comerciais, isso sim”, analisa.

Para ele, a nova presidente vai equilibrar a distância entre os direitos humanos e as relações comerciais. “A Dilma vai se comportar diferente porque ela é obrigada, é mulher, participou de movimentos armados, combateu, foi perseguida. Não é da personalidade dela adotar um discurso excessivamente pragmático”, projeta.

A mudança de postura em relação ao Irã era dada como certa antes mesmo da eleição. Suano lembra que, quando o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, visitou o Brasil, no final de 2009, a então ministra da Casa Civil era voz contrária à vinda do controverso líder. “Na época, ela já dizia que o tratamento com o Irã deveria ser o de buscar questões comerciais, mas que não poderia se esgotar nisso”, rememora o especialista.

Antes mesmo de tomar posse, a eleita desferiu críticas ao Irã – país tido como estratégico para a projeção internacional do Brasil, com quem Lula estabeleceu sólidas relações. Ao ser questionada sobre a possibilidade de a nação muçulmana cumprir a condenação de apedrejamento imposta a Shakine Ahstiani, sob acusação de adultério, Dilma disparou: “Mesmo considerando os usos e costumes de outros países (o apedrejamento) continua sendo bárbaro”.

Na relação com a América do Sul, Suano acredita que a eleita assume em um momento de consolidação da liderança brasileira. “É capaz de ela dizer: ‘nós temos determinada linha e temos alguns princípios sobre os quais não negociamos”, palpita, referindo-se aos direitos humanos.

Para o diretor do Ceiri, o principal problema de Dilma no continente será a relação com a esquerda mais radical, representada por Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador). “Vai ser complicado num primeiro momento. Mas o Chávez está em decadência, o Correa não está numa situação bem equilibrada. O Evo hoje é o ponto. Ele é o que tem maior estabilidade e está controlando totalmente o congresso”, observa.

Suano acredita que a posição de liderança natural do Brasil na América do Sul favorece o fortalecimento de Dilma. “O tamanho do Brasil obriga que ela assuma a liderança no continente. Esses três países não têm ninguém, eles precisam do Brasil, então terão que acatar determinados posicionamentos da nova presidente”, prevê. (…)

Outra teoria que se ventila sobre a política externa é a de que Dilma daria mais prioridade ao estreitamento dos laços com os Estados Unidos. O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, ministro Marco Aurélio Garcia, discorda dessa teoria. Ele, que vai permanecer no cargo, garante que a petista lhe pediu pessoalmente que dê mais atenção aos países vizinhos. “Lula teve tempo para construir as relações (com os presidentes sul-americanos). A Dilma também vai construir, está muito disposta a isso”, asseverou.

Garcia diz ainda que a política internacional não sofrerá mudanças significativas, mesmo com a saída de Celso Amorim para dar lugar a Antonio Patriota no comando do Ministério de Relações Exteriores. “Vamos ter o Itamaraty com a mesma orientação”, avaliza. Entretanto, Suano aponta que a saída de Amorim é um indicativo claro de mudanças na política internacional. “O Amorim se apresentava de uma forma em que as questões diplomáticas podiam estar submetidas às necessidades políticas. O Patriota não vai fazer isso. Ele vai ficar num período muito claro de transição, trabalhando tecnicamente e seguindo certas orientações que ainda vão se configurar”, arrisca o diretor do Ceiri.

Reportagem completa em: http://sul21.com.br/jornal/2010/12/posse-de-dilma-nao-promovera-alteracoes-bruscas-no-governo-apesar-do-estilo-diferente-de-lula/

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